O filho da noiva (Argentina, 2001)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Argentina.

 

         Carvalho de Mendonça

 

        

O FILHO DA NOIVA (Argentina, 2001)

El hijo de la novia – Drama – 2h04min – Juan José Campanella

A obra em 12 segundos

Rafael respira o trabalho em seu restaurante, o que o faz negligenciar os demais aspectos de sua vida. Porém, um grave problema de saúde, o reaparecimento de um amigo de infância e um projeto inesperado de seu pai o fazem repensar suas prioridades.

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A obra em 55 segundos

Juntar o cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín é uma receita para o sucesso, para fortes emoções e para cenas inesquecíveis. Explorando temas sensíveis e humanos, O filho da noiva, filme argentino de 2001, não possui a riqueza narrativa de O segredo de seus olhos, mas esbanja profundidade com personagens complexos e diálogos afiados. Rafael (Darín) respira o trabalho em seu restaurante, o que o faz negligenciar os demais aspectos de sua vida. Porém, um grave problema de saúde, o reaparecimento de Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de infância, e um projeto inesperado de seu pai, Nino Belvedere (Héctor Alterio), o fazem repensar as suas prioridades. A leveza do diretor ao abordar relacionamentos familiares, traçando paralelos entre passado e futuro, entre infância, vida adulta e velhice, entre pais, filhos e netos, entre maridos, ex-maridos, esposas e ex-esposas, é tocante, capaz de gerar turbilhões de sentimentos por simples olhares trocados.

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A obra em 3 minutos e 19 segundos

O cineasta argentino Juan José Campanella ficou imortalizado na história da sétima arte ao levar pra casa a estatueta do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010, pelo cultuadíssimo suspense dramático O segredo dos seus olhos. Porém, anos antes, em 2001, o diretor já havia sido indicado ao prêmio, com o belo drama O filho da noiva, obra parcialmente baseada em fatos vividos por Campanella na relação com a mãe, portadora do Mal de Alzheimer, assim como Norma, personagem vivida no filme pela incrível Norma Aleandro.

Rafael Belvedere (Ricardo Darín) respira trabalho, o que o faz negligenciar os demais aspectos de sua vida. Vivendo com o encargo de não deixar ruir o restaurante construído e mantido durante décadas por seus pais, ele deixa de lado o lazer, as relações interpessoais, o crescimento da filha Vicky (Gimena Nóbile), e sequer visita sua mãe adoentada em um asilo. Porém, um grave problema de saúde, o reaparecimento de Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de infância, e um projeto inesperado de seu pai, Nino Belvedere (Héctor Alterio), o fazem repensar as suas prioridades.

Juntar o cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín é uma receita para o sucesso, para fortes emoções e para cenas inesquecíveis. Amigos, os dois já trabalharam juntos em O mesmo amor, a mesma chuva (1999) e Clube da Lua (2004), além do já citado O segredo de seus olhos, e de O filho da noiva. Darín, atualmente, é o grande nome do cinema argentino perante o público estrangeiro. Sua versatilidade impressiona e o seu talento pode ser admirado desde em comédias, como Um conto chinês (2011), até em dramas pesados, como Todos já sabem (2018), passando pelos já clássicos Nove Rainhas (2000) e Relatos Selvagens (2014). Em O filho da noiva, tanto Campanella, quanto Darín, estão no auge da sensibilidade artística, apresentando, talvez, o trabalho mais humano de ambos.

A leveza do diretor ao abordar relacionamentos familiares, traçando paralelos entre passado e futuro, entre infância, vida adulta e velhice, entre pais, filhos e netos, entre maridos, ex-maridos, esposas e ex-esposas, é tocante, e capaz de gerar turbilhões de sentimentos por simples olhares trocados. E por falar em troca, ela é perfeita entre o elenco. Como peça fundamental e guia maior da narrativa, Rafael trava diálogos inacreditáveis com os demais personagens: escancarando a conflituosa relação com a mãe, o peso do legado do pai, a ausência na criação da filha, a dificuldade nas relações amorosas, a calamitosa situação econômica e política da Argentina, e a impiedosa ação do tempo e do envelhecimento.

Buenos Aires é o cenário perfeito para a ambientação do drama da família Belvedere. O charme da cidade e de seu povo, que exala uma mistura exótica de tradição europeia e sangue quente latino, conversa suavemente com as figuras em cena. Ricardo Darín, Norma Aleandro, Héctor Alterio e Eduardo Blanco merecem nada menos que nota máxima pelo trabalho impecável nas atuações. O filho da noiva é um drama sutil, mas de uma grandiosidade emocional que o coloca na seleta lista dos melhores filmes de sempre desse cinema maravilhoso que é o argentino.

Ponto forte: Diálogos e atuações sensíveis e poderosos.

Ponto fraco: Filme poderia ser menor, o que impediria alguns momentos repetitivos e maçantes.

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Ficha Técnica

Direção de Juan José Campanella

Roteiro de Juan José Campanella e Fernando Castets

Produção de Adrián Suar

Elenco principal com Ricardo Darín, Norma Aleandro, Héctor Alterio, Eduardo Blanco, Natalia Verbeke e Claudia Fontán

Fotografia de Daniel Shulman

Edição de Camilo Antolini

Cenografia de Pablo Racioppi

Figurino de Cecilia Monti

Trilha Sonora de Angel Illarramendi e Iván Wyszogrod

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Dica cultural, diretamente da Argentina

A dica cultural de hoje é um pouco diferente das demais. Não falaremos de filmes, livros, quadrinhos, músicas, pinturas e afins. Indicarei um local maravilhoso que conheci em Buenos Aires, durante a minha última viagem de férias: o bairro de La Boca. O nome do lugar foi escolhido devido ao fato de se encontrar à beira do “riachuelo” que “desemboca” no Rio da Prata. Localizado em uma zona portuária, La Boca é considerado um dos bairros mais pobres da cidade, porém, sua alma o transforma em um emocionante (e imperdível) ponto turístico portenho. Ali nasceram os principais clubes de futebol do país, River Plate e Boca Juniors, sendo que este último ainda permanece por lá e é parte indissociável do bairro, das casas, das paredes e dos moradores, que respiram e transpiram futebol. Junto ao charmoso Estádio La Bombonera, o Caminito, com suas casinhas coloridas, é outra visita rica e necessária. Apesar de ter passeado por quase todas as áreas de Buenos Aires, nenhuma foi tão marcante quanto La Boca, o mais popular e mais sanguíneo bairro argentino.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça


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