Culpa (Dinamarca, 2018)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Dinamarca.

Carvalho de Mendonça

CULPA (Dinamarca, 2018)

Den skyldige – Suspense/Thriller – 1h28min – Gustav Möller

A obra em 11 segundos

Com a câmera voltada quase o tempo todo para o rosto de um policial em chamada de emergência, Culpa se utiliza de sons, vozes e roteiro primoroso, para criar um angustiante thriller de locação única.

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A obra em 49 segundos

Faltando apenas alguns minutos para o encerramento de seu turno de trabalho, o policial Asger Holm (Jakob Cedergren) atende a chamada de uma mulher que está sendo sequestrada. Munido de poucas informações, ele inicia uma solitária investigação, enquanto se angustia em razão de uma audiência judicial agendada para o dia seguinte. Utilizando-se de locação única e de uma câmera voltada em tempo integral para a face do protagonista, o estreante Gustav Möller demonstra toda a sua capacidade de direção e roteiro. Com um argumento audacioso, os ângulos e sons escolhidos, o movimento de câmera e a direção de ator seriam primordiais para a obra funcionar e não cair na armadilha do marasmo. E Culpa consegue, criando um claustrofóbico thriller policial sem sair de sua mesa.

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A obra em 2 minutos e 36 segundos

Asger Holm (Jakob Cedergren) é um policial dinamarquês que, ao atender uma chamada de emergência, se vê envolto por uma misteriosa trama, que desafia não só a sua capacidade profissional, mas também o seu autocontrole emocional. Aos poucos, as atitudes de Asger vão revelando ao público que ele está prestando serviços internos na delegacia em virtude de um acontecimento recente, pelo qual responde na justiça, e sobre o qual, inclusive, terá uma importante audiência no dia seguinte.

Culpa, filme de estreia de Gustav Möller, surpreendeu público e crítica com sua proposta audaciosa, alcançando a considerável honra de ser semifinalista na corrida pela indicação ao Oscar 2019. Apresentando um roteiro coeso e um trabalho de áudio invejável, a obra insere o espectador em um thriller policial, no qual o investigador precisa solucionar o caso tendo acesso apenas a sons e informações desconexas. Neste cenário, Cedergren dá vida a uma figura aflita de olhos angustiados e inquietos, que carrega o filme magistralmente com a câmera por 90 minutos em sua direção.

Muito se fala, atualmente, sobre o desgaste dos gêneros cinematográficos e a necessidade de se criar novas roupagens, que concedam fôlego a velhas fórmulas. Inesperadamente, Culpa surge como um grato rompimento aos padrões de um dos gêneros mais manjados da indústria. O filme se passa em apenas um ambiente, focado inteiramente em um único personagem e suas interações telefônicas, correndo todos os riscos de cair na monotonia, mas se sai muito bem, criando uma atmosfera profunda. Para isso, o diretor emprega técnicas imprescindíveis de movimentação de câmera e pequenas inserções de quebra, como a ligação de uma jornalista, duas trocas de sala, alguns diálogos com colegas de trabalho e o fechar de uma cortina.

O brilhantismo do roteiro de Gustav Möller e Emil Nygaard Albertsen fica ainda mais evidente quando se analisa a evolução do personagem diante das vistas, sem descanso. Asger é apresentado, inicialmente, com a farda impecável, o cabelo bem penteado e até um certo bom humor (demonstrado ao atender a ligação de um homem assaltado por uma prostituta), em que pese manter-se distante e desatento. Porém, com o desenrolar dos acontecimentos, sua aflição contida começa a aflorar em cada movimento corporal e Jakob Cedergren brinda o cinema com uma atuação grandiosa. Do outro lado da tela, o espectador se apavora, pois, além de compartilhar de todas as limitações do protagonista, ainda sofre por não poder agir e tomar providências.

A chamada recebida por Asger é de uma mulher vítima de sequestro, que pede socorro. A partir dela, outros contatos são feitos com o policial, e essas vozes, esses ruídos, essas respirações vão compondo o clima e montando o quebra-cabeça, ao passo que despertam em Asger (e em outros personagens também, por que não?) sentimentos conflitantes e aterradores. Sendo que a culpa é apenas um deles.

Ponto forte: roteiro competente ao trabalhar um argumento extremamente perigoso, que poderia facilmente ter desandado para a monotonia completa.

Ponto fraco: tanto a tradução brasileira do título (Culpa), quanto o original (O Culpado), não refletem com eficiência a temática do filme, haja vista que a sua essência não coaduna com as definições de “culpa”, nem no aspecto emocional, nem no aspecto jurídico. Apesar de presente, na obra não ficou demonstrado ser a “culpa” o sentimento imperioso dos fatos narrados.

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Ficha Técnica

Direção de Gustav Möller

Roteiro de Gustav Möller e Emil Nygaard Albertsen

Elenco principal com Jakob Cedergren, Morten Thunbo, Maria Gersby, Anders Brink Madsen, Katinka Evers-Jahnsen (voz), Jacob Lohmann (voz), Laura Bro (voz), Morten Suurballe (voz), Peter Christoffersen (voz), Jessica Dinnage (voz), Johan Olsen (voz) e Omar Shargawi (voz)

Produção de Lina Flint, Mads-August Grarup Hertz e Henrik Zein

Fotografia de Jasper Spanning

Edição de Carla Luffe Heintzelmann

Design de Produção de Gustav Pontoppidan

Trilha sonora de Carl Coleman e Caspar Hesselager

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Dica cultural, diretamente da Dinamarca

Nossa dica cultural de hoje é o filme A Festa de Babette (Babettes gæstebud), obra com direção de Gabriel Axel, baseada no conto homônimo de Karen Blixen, que conquistou pela primeira vez para a Dinamarca o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1988. Repleto de simbolismos filosóficos, o longa se utiliza da poesia culinária para refletir sobre o pecado, a felicidade e a graça. Babette (Stéphane Audran) é uma francesa que, fugida de seu país, chega a um vilarejo dinamarquês dominado por dogmas religiosos e se oferece para trabalhar na casa de duas senhoras solteiras. Após quatorze anos vivendo sob às privações do puritanismo local, Babette ganha na loteria e tem a oportunidade de escapar daquela realidade, porém, decide ficar e proporcionar um sofisticado banquete para os moradores da vila. Drama profundo e conceituado, A Festa de Babette ocupa um lugar importante na cena europeia de clássicos do cinema e, também, no coração dos entusiastas da gastronomia.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até à próxima.

Carvalho de Mendonça


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