Cenas de um casamento (Suécia, 1974)

Mensalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Suécia.

 

         Carvalho de Mendonça

 

        

CENAS DE UM CASAMENTO (Suécia, 1974)

Scener ur ett äktenskap – Drama – 2h49min – Ingmar Bergman

A obra em 11 segundos

Filme de quase três horas ou série de seis episódios, obra do inspirado Ingmar Bergman retrata a crise do casamento de Marianne e Johan, com diálogos poderosos, e interpretações inesquecíveis de Liv Ullmann e Erland Josephson.

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A obra em 43 segundos

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1975, Cenas de um casamento conta a história de Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), um casal bem sucedido financeiramente e profissionalmente, que percebem, após alguns acontecimentos, que o seu casamento está ruindo. Poderoso e comovente, o filme é um dos retratos familiares mais complexos da história do cinema. Concebido inicialmente como uma série de seis episódios, a obra completa totaliza 281 minutos sublimes, com uma direção sensível e provocadora de Bergman, e uma atuação magnânima da incomparável Liv Ullmann. Acompanhamos a evolução e a decadência psicológica e sentimental do casal, numa análise comportamental jamais vista. Os diálogos ácidos de Bergman, recheados de inserções filosóficas, antropológicas, sociológicas e literárias, tocam profundamente em feridas doloridas do cotidiano a dois.

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A obra em 2 minutos e 5 segundos

O sucesso do original Netflix História de um casamento, dirigido por Noah Baumbach, fez a comunidade cinematográfica da internet relembrar um clássico há muito esquecido na filmografia de Ingmar Bergman. Cenas de um casamento, obra de 1974, inicialmente concebida como uma série de televisão em 1973, é uma óbvia referência no trabalho de Baumbach, que certamente bebeu muito da fonte do mestre sueco, assim como seus protagonistas, Scarlett Johansson e Adam Driver, também beberam ao compor os personagens.

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1975, Cenas de um casamento conta a história de Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), um casal bem sucedido financeiramente e profissionalmente, que aparenta também gozar de um matrimônio auspicioso. A imagem positiva da relação, inclusive, se torna objeto de uma reportagem de revista, realizada pela jornalista Palm (Anita Wall), abordando os dez anos da união de duas figuras intelectuais e admiráveis.

Ocorre que os questionamentos efetuados pela entrevistadora, a prestação de serviço de Marianne como advogada no divórcio da Sra. Jacobi (Barbro Hiort af Ornas), o jantar com o casal desestruturado de amigos Katarina (Bibi Andersson) e Peter (Jan Malmsjo), o flerte de Johan com uma colega de trabalho e a insatisfação de Marianne ao perceber a dificuldade de romper com a tradicional visita à casa de seus pais todo domingo, fazem com que o castelo de areia desmorone, e desencadeie uma sequência de eventos massacrantes para o casamento deles.

Poderoso e comovente, Cenas de um casamento é um dos retratos familiares mais complexos da história do cinema. Assim sendo, é um pecado assistir a obra em formato de filme, em detrimento da versão estendida, em série. Os seis episódios, que totalizam 281 minutos, são sublimes, com uma direção sensível e provocadora de Bergman, e uma atuação magnânima da incomparável Liv Ullmann. Acompanhamos a evolução e a decadência psicológica e sentimental do casal, numa análise comportamental jamais vista.

Basta ter o mínimo de sensibilidade para já não conseguir ficar alheio ao relacionamento abusivo de Marianne e Johan. Os diálogos ácidos de Bergman, recheados de inserções filosóficas, antropológicas, sociológicas e literárias, tocam profundamente em feridas doloridas do cotidiano a dois. Diversos são os bons filmes que tratam da temática do casamento, outros tantos são excelentes ao abordar relações entre casais, muitos escancaram as dores do adultério, e vários expõem o drama do divórcio. Mas Cenas de um casamento é o único a mostrar o cenário completo, de modo magistral e inesquecível.

Ponto forte: Diálogos, atuações e direção de Bergman entrosadíssimas e especialmente inspiradas.

Ponto fraco: O filme perde muito para a série. Quem tiver a oportunidade, deve assistir a versão estendida.

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Ficha Técnica

Direção de Ingmar Bergman

Roteiro de Ingmar Bergman

Produção de Lars-Owe Carlberg

Elenco principal com Liv Ullmann, Erland Josephson e Bibi Andersson

Fotografia de Sven Nykvist

Edição de Siv Lundgren

Design de produção de Bjorn Thulin

Figurino de Inger Pehrsson

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Dica cultural, diretamente da Suécia

A dica cultural de hoje é mais um Ingmar Bergman, Liv Ullmann e Erland Josephson, porque Bergman, Ullmann e Josephson nunca são demais. “A Hora do Lobo”, filme de 1968, é um terror surrealista do mestre sueco, protagonizado pelo monstro sagrado Max von Sydow. Um casal se muda para uma ilha afastada, onde a população apresenta comportamentos estranhos, e esse ambiente acaba afetando-os, principalmente o marido, psicologicamente. Repleto de referências góticas, a obra aposta num ambiente de pesadelo, e convida o público a sofrer com o artista Johan Borg, um homem atormentado pela culpa, pelo medo, pelo desespero, e pela hora do lobo, que é “a hora que antecede o lusco-fusco da madrugada. É a hora em que a maioria das pessoas morre, quando o sono é mais profundo e os pesadelos piores. É a hora em que o insone é perseguido por suas piores angustias, quando os fantasmas e os demônios são mais impressionantes. A Hora do Lobo é também a hora em que a maioria das crianças nasce.” Foi o meu primeiro contato com a obra de Bergman e é, até hoje, um dos filmes mais marcantes da minha vida.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça


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